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De vestido azul da Gucci, e diversas outras combinações que não são consideradas padrões masculinos, Harry Styles estrelou como o primeiro homem na capa da Vogue americana em novembro de 2020. Antes que qualquer crítica que pudesse surgir, Harry Styles, declarou que “as roupas existem para se divertir, brincar e experimentar”, porém nem todos encararam a sua diversão com bons olhos.


A primeira pessoa a mostrar seu desagrado com a posição da Vogue colocar um homem usando um vestido em sua capa, foi a ativista política e escritora Candace Owens. Conhecida por suas declarações pró-Trump e críticas ao movimento Black Lives Matter, usou seu Twitter para comentar sobre ter de volta homens viris na sociedade:

“Não há sociedade que possa sobreviver sem homens fortes. O oriente sabe disso. No ocidente, a feminilização constante de nossos homens, ao mesmo tempo em que o marxismo está sendo ensinado aos nossos filhos, não é uma coincidência. É um ataque direto. Tragam homens viris de volta”.

Aos que pensaram que toda essa confusão já tinha chegado ao fim, quase um ano depois da capa da Vogue, em outubro de 2021 o assunto retornou aos principais tópicos do Twitter. Dessa vez quem se manifestou foi o ator de Pose, Billy Porter. Com uma fala diferente do posicionamento de Owens, Billy Porter criticou a própria Vogue ao colocar Harry Styles em uma capa sobre moda não-binária.


Para o ator, a Vogue fez uma escolha equivocada, uma vez que ele já vinha comentando sobre o assunto anos atrás e que Harry Styles era “um homem branco, heterossexual, em um vestido em sua capa pela primeira vez”. Porter disse que ele mesmo havia mudado todo o “jogo”, a respeito da moda não-binária, e que sua posição não estava relacionada ao ego, mas sim que isso era um fato.


Para Christian Gonzatti, doutorando em Ciências da Comunicação pela Unisinos e especialista em cultura pop, gênero e sexualidade, Billy Porter é mais representativo do que Harry Styles, uma vez que ele integra as culturas que movimentam a moda em direção ao debate de gênero. Gonzatti explica: “Billy é um homem negro que se assume LGBT, que traz essa pauta de maneira posicionada, que está em Pose, série importante que documenta parte da história de resistência LGBT”.


Para a jornalista da Vogue, Gabriela Bardusco, o aparecimento de Harry Styles foi uma quebra de barreiras, ainda mais se tratando da Vogue USA. “É o principal título de moda do mundo por mais que ele seja um homem branco e cis, ele é uma pessoa que carrega muitas bandeiras”, diz Gabriela ao se refer ao fato de Harry Styles apoiar  causas LGBTQIA+ e o movimento Black Lives Matter.


Segundo a jornalista, o artista deu um grande  passo tanto na moda quanto para a sua carreira de cantor. Ele é um artista jovem, masculino, que quebra  paradigmas de gênero para a sua geração. “Eu acho isso um marco".


Em novembro de 2021, Billy Porter retornou ao assunto e pediu desculpas ao cantor britânico e completou dizendo: “não é sobre você. A conversa não é sobre você”. Entretanto, não é de hoje que o cantor Harry veste, causa grande alvoroço na internet, de forma boa ou ruim, a moda e Harry Styles vem andando juntos.

É engraçado porque eu não me considero assim (ícone de estilo), mas reunir as pessoas é o que mais me orgulha. Nos shows, eu consigo uma espécie de assento na primeira fila para ver um monte de pessoas entrando em uma sala juntas e sendo elas mesmas

Harry Styles para a revista Dazed.

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O cardigan que se tornou viral no TikTok

Durante a manhã do dia 26 de fevereiro de 2020, Harry Styles subia ao palco do Citi Concert Series, um show gratuito oferecido pelo programa televisivo estadunidense The Today Show. Durante o ensaio o cantor usava tênis brancos da Vans, calça jeans da Gucci, camiseta branca que dizia “enjoy health, eat your honey” e um cardigan colorido da grife JW Anderson. ​


Com a agilidade que a internet nos proporciona hoje em dia, não é necessário que os fãs esperem um mês para revistas saírem nas bancas de jornais para conferir onde seu ídolo estava, com quem estava e qual roupa estava usando. Dessa forma, no momento que fãs que assistiam à passagem de som e filmaram cada movimento do cantor, não demorou muito para que as fotos se espalhassem pelas redes sociais como TikTok, Twitter e Instagram, se tornando virais.


Diferente da roupa usada no show oficial que aconteceria naquele dia mais tarde, a roupa usada no ensaio começou a ter uma grande procura, mas assim como muitas roupas de Harry Styles, essa era uma grife. Custando £1.250,00, aproximadamente R$ 8.065,63, a peça de luxo se tornou algo impossível para a maioria dos fãs do cantor, principalmente fãs brasileiros. 


​Desde fevereiro de 2020, o cardigan colorido está entre os 10 produtos mais pesquisados da marca JW Anderson segundo a Lyst, plataforma global de pesquisas sobre o mundo da moda. De acordo com a Vogue Business, as palavras-chave “patchwork”, “crochê” e “tricô”, também tiveram um aumento de buscas em 78% entre fevereiro e março de 2020

Conhecido pelos seus challenges ou os chamados “desafios”, em português, o TikTok é uma plataforma de vídeos de até 3 minutos, onde pessoas compartilham diversos vídeos como danças, interpretação e arte. Com assuntos específicos, o TikTok distribui seus vídeos de acordo com o que o usuário mais assiste e curte, sendo assim, não demorou muito para que o fandom de Harry Styles, as chamadas Harries ou HStan que produzem conteúdos para a plataforma sobre o cantor, começassem a compartilhar vídeos ensinando e tentando fazer o cardigan usado pelo ídolo. A hashtag #HarryStylesCardigan já ultrapassou 83 milhões de visualizações na plataforma de vídeos.


Fãs do mundo todo passaram a compartilhar o passo a passo de seus cardigans, até aqueles que nunca tinham se aventurado a tricotar, começaram a fazer pela primeira vez ou pediam para seus familiares fazerem. Ao ver todo o sucesso da sua peça, o designer Jonathan Anderson, fundador da grife JW Anderson, disponibilizou um arquivo em PDF para que fãs pudessem fazer seus próprios cardigans.


Com todo o sucesso da peça de patchwork colorida, alguns aproveitaram a oportunidade para comercializar o produto com preços mais acessíveis para os fãs que não soubessem como produzir, também pudessem adquirir o produto, o que foi o caso da fã Beatriz Ramos, 22, que inicialmente queria um cardigan para ela. Beatriz conta que pediu para sua mãe fazer a peça de patchwork e que inicialmente ficou “feia”, mas as coisas mudaram quando postou no Instagram e no Twitter. “Aos poucos as pessoas foram chegando e perguntando se a gente vendia”, foi nesse momento que Beatriz percebeu que poderia ganhar dinheiro com a peça tricotada pela sua mãe, e então decidiram abrir a loja virtual Harry Styles’ Cardigan Brasil.

 

Com a ajuda de sua mãe, tia e avó, os cardigans que inicialmente levavam três meses para serem tricotados, atualmente com a prática, o processo leva em média uma semana e meia. A peça 100% artesanal, é vendida por R$ 450,00, podendo variar de acordo com o preço e disponibilidade da lã, por exemplo “agora que entrou o calor, já não tem tanta lã nas lojas", comenta Beatriz. 


A família não tem a loja como sua principal fonte de renda, Beatriz que é estudante de moda, diz que usa seus momentos livres para dar conta de todos os pedidos. “Eu quando estava trabalhando, fazia no carro. Minha mãe acorda às cinco da manhã para fazer e depois vai trabalhar”, já sua avó é aposentada e também aproveita alguns momentos para poder fazer os cardigans.


O sucesso de uma simples peça de roupa, usada durante um ensaio curto, pode ter causado muito alvoroço em pouco tempo, algo que também acontece com outras roupas e acessórios usados por Harry Styles. Beatriz conta que já tentaram vender outras coisas em sua loja, como o cropped usado por Styles no videoclipe Watermelon Sugar, que até mesmo foram para a praia para fotografar, mas a procura pela peça de tricô continua sendo maior do que as demais.


A preocupação sobre direitos autorais também existe, a proprietária da Harry Styles’ Cardigan Brasil conta que ela e sua mãe têm esse medo, já que não foram elas que inventaram a peça de roupa. “Ninguém gosta de ter seu trabalho ‘roubado’, mas nem todo mundo tem condições de pagar 8 mil reais num cardigan, nem eu”, diz Beatriz, “A gente faz de uma forma que mais pessoas possam usar” completa. 

 

E essa preocupação não é à toa, em abril de 2021. A empreendedora Lydia Hill postou em sua conta do TikTok que estava confeccionando um vestido igual ao usado por Harry Styles na capa da Vogue e que em breve estaria disponível para compra em seu site. O problema surgiu tempos depois, quando a empreendedora postou outro vídeo sobre um suposto processo da equipe de Harry Styles, o vídeo foi apagado, mas outras contas explicaram o caso.

 

Apesar da peça ainda estar presente em seu site, a questão principal envolvendo o caso não foi a produção da peça em si, mas sim associar o nome do artista diretamente às vendas como forma de “trade marketing”, para impulsionar as vendas. A maior parte dos artistas já tem uma marca, os famosos merchandising, o que acarreta em propriedade intelectual, assim como a notificação que Lydia recebeu da equipe de Styles.


Entretanto, quando falamos do cardigan, o próprio estilista disponibilizou a “receita” para que os fãs recriassem a peça, como forma de incentivar a produção independente, mesmo que isso ocasione a queda de vendas de sua grife, em contrapartida, o vestido da Gucci, originalmente cor de rosa, teve sua cor alterada exclusivamente para Harry Styles.

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Onde tudo começou 

Dia primeiro de fevereiro em Cheshire, condado localizado no Noroeste da Inglaterra, nascia o segundo filho de Des Styles e Anne Twist: Harry Edward Styles. No vilarejo Homes Chapel, o pequeno frequentava a creche Happy Days, fazia novos amigos e frequentemente estava em peças de teatro, como O Calhambeque Mágico, interpretando o famoso brinquedo Buzz Lightyear, Um dos poucos registros compartilhados, o jovem Harry está interpretando Barney, um rato que vivia em uma igreja. "Eu tive que usar uma meia-calça cinza da minha irmã e uma tirara com oelhas, e cantar na frente de todo mundo. Acho que fui um bom rato."

Em entrevista para o programa britânico Lorraine, Anne Twist comentou do orgulho que sente por Harry a respeito do ensaio fotográfico feito para Vogue e relembrou dos anos que contou sobre o quanto Harry sempre gostou de se vestir e se fantasiar".

“Eu acho que talvez eu tenha algo a ver com isso porque eu sempre fui uma grande fã de fazer fantasias com eles quando eram menores, o que (a irmã de Harry) Gemma sempre odiou, mas Harry sempre abraçou”, disse ela. “Mas quem não ama brincar de se fantasiar?“

conta Anne.

Se a atuação começou nos primeiros anos escolares, a carreira musical não ficou para trás. Sempre envolvido com música, Harry Styles formou sua primeira banda em 2009 quando ainda estava na quinta série. Ao lado de Will, Hayden e Nick, colegas de escola, resolveram criar a White Eskimo, nome sugerido por Styles, e por fim, decidiram que entrariam na batalha de bandas da escola. De camisa branca e gravata preta a banda se apresentou pela primeira vez.

Sempre adorei cantar. A primeira música cuja letra eu decorei foi "Girl of My Best Friend" do Elvis. Meu pai me mostrou essa música e quando ganhei um caraoquê do meu avó, meu primo e eu gravamos um monte de músicas do Elvis. Gostaria de ainda tê-las para poder ouvir

Harry Styles para o livro "Coragem Para Sonhar".

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A volta das boybands

Em 2010 Anne Twist convenceu seu filho de apenas 16 anos a se inscrever no programa musical de talentos The X-Factor UK. Ao som de Isn’t She Lovely” do Stevie Wonder, Harry Styles se apresentou usando um cardigan cinza, uma echarpe verde e pulseiras para completar o visual, como qualquer outro adolescente de sua idade, parecia ainda estar descobrindo o próprio estilo.


Sendo eliminado na fase solo, Harry foi salvo em uma repescagem feita pelos jurados Simon Cowell e Nicole Scherzinger, mas com a condição que formasse uma banda com outros competidores: Louis Tomlinson, Liam Payne, Zayn Malik e Niall Horan. E assim foi formada a One Direction, nome escolhido por Styles. 


Apesar de terem chegado a final e se consagrado no terceiro lugar, a banda com certeza teve um destaque maior que os demais participantes da sétima temporada do The X-Factor. Com cinco anos de formação, cinco turnês e mais de 200 milhões de discos vendidos no mundo, a One Direction foi o maior fenômeno pop rock entre 2012 e 2015, e mal tinha tempo para descanso. No documentário de 2013, This is Us, dirigido por Morgan Spurlock, disponível na Netflix, Anne Twist, mãe de Harry Styles, lamentou o quanto era difícil passar tanto tempo longe do filho adolescente, que saiu de casa aos 16 anos para viver esse sonho e que desde então voltava poucas vezes durante o ano  para apenas dois ou três dias com a família.


O grande fenômeno da One Direction está ligado a diversos fatores como a sonoridade escolhida para a banda. A música pop tem o objetivo de ser popular e alcançar mais pessoas, o gênero musical estava bastante presente no álbum de estreia da banda: “Up All Night”. Com ritmo contagiante e letras fáceis de aprender, não demorou muito tempo para que “What Makes You Beautiful" se tornasse hit nas paradas norte-americanas, com mais de 1 bilhão de visualizações no YouTube.


Porém, é inegável, o carisma dos cinco garotos contribuiu para esse sucesso. A vida de Harry, Liam, Louis, Niall e Zayn foi algo de grande interesse para grande parte dos adolescentes nos anos em que a banda ainda permanecia junta. A principal pauta eram os seus relacionamentos, que deixava qualquer fã de cabelo em pé com a possibilidade de um dos meninos estarem namorando, uma vez que a boyband servia exatamente para despertar esses sentimentos em garotas adolescentes que idealizavam namorar um dos cinco garotos, principalmente Harry Styles. Ele sempre foi tido como o "romântico", o “mulherengo” e o “conquistador”, rótulos que nem o próprio cantor gostava, principalmente pela sexualização que começou quando o garoto tinha apenas 16 anos. 


Sempre ficando desconfortável quando esses assuntos eram colocados em pauta e defendido pelos seus colegas de banda, em entrevista para o Access Hollywood, a entrevistadora questionou Harry styles, “Você é o mulherengo, certo? Você é o cara que gosta das mulheres”, antes que ele pudesse responder, Zayn Malik apenas rebateu dizendo: “Não, ele é um cara legal”. 


Na época, grande parte do fandom apoiava um suposto relacionamento com outro integrante da banda, Louis Tomlinson, uma vez que Louis e Harry eram extremamente próximos no início da One Direction, chegando até mesmo a morar juntos enquanto os outros garotos tinham suas próprias casas. Apelidados de “Larry”, junção do nome de ambos, o possível casal sempre foi um divisor dentro do fandom, entre aqueles que não acreditavam e aqueles que acreditam no relacionamento até hoje, o que gera brigas e discussões. 


Isso gerou o afastamento de ambos, já que em 2015, quando a banda estava prestes a entrar em hiato, Louis e Harry mal interagia durante as entrevistas, diferente de antes quando o toque era algo extremamente presente quando os dois estavam juntos. Parte dos fãs acreditam que o próprio fandom arruinou a amizade, enquanto a outra parcela acredita que eles não poderiam falar sobre isso por conta da “mídia homofóbica” e da gestão da banda que “gostaria de continuar com a visão de que os meninos eram garotos héteros”. E assim continuar despertando a atração feminina por eles, uma vez que há registros da produção os impedindo de sentarem juntos em uma entrevista. Por outro lado, parte do fandom ainda acredita que ambos estejam juntos e inclusive casados, há diversas teorias que giram em torno do assunto pela internet, as famosas fanfics.

Você sabe o que são as fanfictions?

As fanfics são histórias de ficção criadas por fãs e para fãs, podendo ser de livros, séries, filmes e até celebridades. As histórias são escritas com alteração de enredos e universos, podendo mesclar personagens de séries e filmes diferentes. 

Há diversos tipos de fanfictions, como as one-shots, que possuem apenas um capítulo; as songfics, escritas com base em uma letra de música; e as famosas AU’s ou Alternative Universe, bastante presente no Twitter, assim como seu nome sugere, que se passa em um universo alternativo.

Muitas pessoas já ficaram conhecidas por conta de suas histórias, como a autora de 50 Tons de Cinza, E.L James, que originalmente escreveu uma fanfic baseada em Crepúsculo, ou podemos citar Anna Todd, autora de After, fanfic que tinha Harry Styles como personagem principal, mas com personalidade e enredos completamente diferentes da vida real.

Graças a internet e as plataformas onde as fanfics são disponibilizadas como Wattpad e Social Spirit, muitos jovens escritores têm surgido e sido publicados como é o caso da brasileira Jhuly Santana, que recentemente publicou o livro “Lembre-se” pela Editora Whalien, que originalmente era uma fanfic de Harry Styles e Louis Tomlinson chamada “You’ve Forgotten”.

Embora haja assuntos que sejam do foro íntimo, sendo ela uma celebridade ou não, fãs sempre cobram seus ídolos, querem saber mais sobre suas identidades e visões de mundo. Harry Styles nunca pontuou publicamente sua sexualidade, mas sempre se posicionou a respeito das causas LGBTQIA+, feminismo e à respeito de causas como o movimento Black Lives Matter, e apesar de nunca ter se identificado, o que apesar de não ser exatamente o que os fãs esperam, isso traz visibilidade para alguns movimentos e causas. 


Para a pesquisadora Adriana Amaral, da Unisinos (RS), essa cobrança pode vir da sensação de intimidade que as mídias sociais acabam causando e que os artistas se alimentam disso. “É uma retroalimentação, os artistas precisam que os fãs estejam ali apoiando, mas os fãs também têm seus pedidos, as suas cobranças. É uma relação tênue e tensa”.

A maior parte dos fãs de Harry Styles o conheceu por conta da One Direction, por volta dos seus 12 anos, hoje muitos já são adultos e permanecem no fandom. Entretanto, nem sempre isso é visto de forma natural. É comum vermos pessoas associando o gosto por boybands como algo infantil ou até mesmo associado ao gênero feminino. Para a professora Adriana Amaral, muitas questões como essa são consideradas menores por ser o que “mulheres gostam”, em especial na adolescência

Se é moda, se é maquiagem ou se é boyband, são de menor importância. Quando a gente vai avaliar as indústrias, são coisas economicamente importantes

Explica Adriana.

Se engana quem pensa que Harry Styles se sente ofendido ao ouvir que a maior parte do seu público é feminino. Ao ser entrevistado para a Rolling Stone em 2017, Harry Styles seguiu um rumo diferente quando o assunto é fandom, enquanto muitos cantores gostariam de não serem associados à suas antigas boybands ou a um grupo de fãs predominantemente feminino, para o britânico isso não parece ser um problema. “Quem pode dizer que garotas que gostam de música pop – abreviação de popular, certo? – Têm pior gosto musical do que um cara hipster de 30 anos? Não cabe a você dizer" declarou Harry. "Música é algo que está sempre mudando. Não há metas. Garotas jovens gostaram dos Beatles. Você vai me dizer que elas não são sérias? Como você pode dizer que garotas não entendem (de música)?”. Continua o cantor: “fãs adolescentes não mentem. Se gostarem de você, elas estarão lá. Elas não fingem. Elas gostam de você e dizem a você. 

Elas (fãs) são nosso futuro. Nossas futuras médicas, advogadas, mães, presidentes. Elas meio que mantêm o mundo funcionando.

Declara Harry Styles para a Rolling Stone

Para a jornalista Gabriela Bardusco, quando um público jovem tem uma referência como Harry Styles, que levanta bandeiras e fala de assuntos relevantes, isso é notável, ainda mais em tempos difíceis e desafiadores. “Ter um ídolo que caminha pelo certo é muito importante”


Durante sua turnê Love On Tour, de 2021, Styles tem incentivado a vacinação para aqueles que ainda não tomaram nenhuma dose da vacina da Covid-19, em especial em locais mais conservadores e com uma política antivacina. E não se limita a isso, Harry Styles exige que os fãs permaneçam de máscara durante os shows, sendo até julgado por conta disso. A cantora M.I.A, criticada por ser antivacina, usou sua conta no Twitter para desaprovar a atitude do cantor: “Se você dançasse nos meus shows com uma máscara, provavelmente morreria depois de uma hora com falta de oxigênio e não viveria para ter Covid”, entretanto, a cantora apagou o tweet momentos depois.

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Identificação e aceitação

Mesmo que não seja posicionado como uma pessoa LGBTQIA+, grande parte dos fãs de Harry Styles se vê representado por ele, como o caso de Fernanda, de 15 anos, nome alterado a pedido dela, que faz parte de uma família religiosa e sente medo de se assumir. Na adolescência, um período de tantas descobertas, encontrou no cantor alguém que pudesse se apoiar. Ainda sobre o seu processo de aceitação, Fernanda conta o quanto é importante para ela o fato de Harry Styles sempre erguer as bandeiras LGBTQIA+ durante seus shows e a maneira que o cantor apoia quem ainda não está preparado para tomar essa decisão de se assumir. "Tudo isso foi graças ao Harry, na maior parte, por ter me apoiado, quando nem eu mesma me apoiava”.

Ele (Harry) foi me ajudando a entender que não é errado, que não é pecado e muito menos confusão ou uma fase (gostar de meninas)

desabafa Fernanda.

Durante a turnê de "Love On Tour" de 2021, Harry Styles tem divertido a todos enquanto lê os cartazes e interage com o público, ele tem ajudado desde pedidos de casamentos até reconciliação de casais. Em sua passagem por Milwaukee, Wisconsin, nos Estados Unidos, o cantor se deparou com uma fã com um cartaz escrito: "Minha mãe está na Seção 201. Me ajude a sair (do armário)". 

 

A fã em questão é McKinley McConnel, 23, e contava com a ajuda do cantor. Harry perguntou a fã o que gostaria que ele dissesse a sua mãe "Eu posso dizer a ela se você quiser". Com toda gritaria e alvoroço com o momento, McKinley se sentiu nervosa e Harry Styles continuou: "Tem um monte de gente aqui. Você não sabia? Você pensou bem nisso?", perguntou o cantor. Quando a fã concordou, Harry correu em direção ao setor e a mãe da fã apareceu no telão, então o cantor gritou "Lisa, ela é gay" e completou: "Eu não queria estragar o momento, mas seria bom se vocês estivessem um pouco mais próximas".


Essa não foi a primeira vez que o cantor ajudou um fã a se assumir, dias antes em show em Uncasville, Connecticut, nos Estados Unidos, Harry leu um cartaz que dizia "Me ajude a sair (do armário). Balance a minha bandeira". Ao pedir para que a fã jogasse a bandeira, Harry Styles falou para a fã: "Quando eu erguer esta bandeira, você está oficialmente fora (do armário). Ouvi dizer que é assim que funciona". Após sacudir a bandeira, o cantor gritou "Liberdade!"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Adriana Amaral nos diz que quando alguém possui fama e voz influente no contexto que estamos vivendo de tensão política e conservadorismo, acaba ajudando as pessoas em vários âmbitos, seja na experiência de gênero, sexualidade e até na saúde mental. “Essas identificações acabam sendo importantes para as pessoas não se sentirem sozinhas”.


Para Christian Gonzatti, é muito importante quando uma celebridade se afirma LGBTQIA+. Entretanto, para ele toda celebridade e a indústria cultural flertam com os movimentos de gênero, uma vez que isso “causa buzz, mobiliza discussão e interesse do público LGBT”. 


Para alguns, o “flerte” de Harry Styles e de outros artistas com a comunidade LGBTQIA+ pode ser considerado queerbaiting, termo utilizado para classificar a atitude de fisgar a atenção da comunidade LGBTQIA+, uma técnica de marketing, mas que também é utilizada por artistas, em especial da música pop. Christian não sabe se há algum “armário para quebrar” ou se Harry faria isso em algum momento, mas que há um flerte de Harry Styles ser ou não ser LGBT.

O fato dele (Harry Styles) ser um apoiador, abraçar a bandeira e levantar essa discussão, tem uma importância. É mais producente uma celebridade que se posiciona dessa maneira, que uma celebridade que está apoiando o Trump ou Bolsonaro.

Eu desbloqueei a habilidade de ser eu mesmo completamente, sem remorso. Eu sou o mais humano que eu já senti em muito tempo, com certeza [...] Eu li outro livro de Jon Ronson chamado So You Been Publicly Shamed. Isso me fez pensar, por um longo tempo, sobre como eu estava com medo de dizer ou fazer a coisa errada e em quantos problemas isso me meteria. Eu ainda estava crescendo, cometendo erros

Harry Styles para a revista Dazed.

conclui Christian

Se ver representado pelo seu ídolo, sem dúvida alguma é uma das coisas que une o fandom e os fazem compartilharem ainda mais esse amor. Apesar de envolver uma série de fatores psicológicos, o amor de fã vai um pouco além disso. Adriana Amaral afirmou que o sentimento do fã também está relacionado à representação e pela “questão social e sociabilidade das pessoas”, uma vez que as pessoas apesar de poderem consumir algo sozinhas, têm uma experiência diferente quando ela é feita em grupo: “as pessoas precisam se agrupar para compartilhar esse gosto”. 


Por isso é tão comum vermos fã-clubes espalhados pela internet, por meio de contas e perfis de fãs  presentes em redes sociais como o Twitter, onde a comunicação e a busca por pessoas que gostem do mesmo assunto, são facilitadas, assim como contas que são criadas exatamente para informar os fãs sobre seus ídolos, conhecidas como “portais”.

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Fãs como produtores de cultura pop

Não há como deixar de lado que existem fatores que desmerecem o trabalho do jornalismo de entretenimento, sendo ele profissional ou não. Na avaliação da professora Adriana Amaral, no início dos anos 2000 o preconceito com quem gostava de falar de cultura pop era bem maior, pois pessoalmente ela enfrentou a resistência de professores e colegas quando se posicionava a respeito.


Adriana ressalta que esse preconceito pode estar relacionado ao machismo, uma vez que o assunto é tido como do gênero feminino, sendo tratado como algo irrelevante. A pesquisadora comenta que algumas pessoas querem ser grandes teóricos intelectuais, porém algumas delas “se esquecem do cotidiano, que são coisas que importam para as pessoas". 


Ao demonstrar que compreende exatamente como um fã se sente quando declara abertamente gostar de um artista, uma franquia ou um assunto específico, Adriana não esconde seu amor por cultura pop: “é até engraçado que às vezes as pessoas acham que eu só gosto disso. Não! Eu leio um monte de coisas, obras clássicas, outras mais estranhas, coisas de arte, que não interessam para a pesquisa (direcionada para a cultura pop)”.


Não apenas o preconceito com a cultura pop vem diminuindo, o jornalismo de cultura pop também passa por mudanças. Se antes era comum que esperássemos por notícias sobre nossas bandas, cantores, atores e franquias favoritas através de revistas e de programas musicais da TV, hoje é habitual que fãs usem as redes sociais, busquem portais de notícias dedicados . Os portais que normalmente ocupam redes como Twitter e Instagram têm muitos seguidores e um alto engajamento, já que narram o cotidiano dos artistas.


Do ponto de vista jornalístico, isso pode ser visto como uma iniciativa que compromete o jornalismo profissional, aquele que apura e se compromete com a verdade, porém Adriana Amaral afirma que pode haver duas vertentes a respeito disso, “minhas pesquisas têm mostrado que muitos pessoas começam bem jovens a produzir conteúdo para sites”, diz se referindo exatamente aos fãs que trabalham nesses portais. 

Muitos vão estudar ou trabalhar com marketing, com design e ilustração. O pessoal começa cedo a entender as lócias de rede, como divulgar, porque participaval de fã-clube e fandoms, isso ajuda eles a se profissionalizar mais tarde.

Explica Adriana Amaral.

Maria Luisa Rodrigues, roteirista do canal do YouTube "Minuto Indie", conta que começou na internet através de portais de notícias da One Direction. Ainda no início da banda, Maria tinha uma conta no Twitter onde compartilhava os passos dos cinco garotos. Olhando para o passado, a roteirista percebe que hoje em dia os portais têm mais cuidado quando o assunto é informar, e que assim como ela, os fãs se tornaram adultos e entendem a gravidade de compartilhar informações falsas. "Hoje todas (donas de portais) cresceram e se profissionalizaram", comenta.


​Podemos ver isso acontecendo com Vitória Arantes e Luana Benfica, que trabalham com publicidade e marketing, mas também são parte da equipe do portal Site Harry Styles Br. Mesmo com suas respectivas profissões, Vitória e Luana participam assiduamente do portal, onde compartilham informações, fotos e vídeos sobre o cantor Harry Styles.


Com o fã-clube criado em meados de 2012, o portal que tem sua página atualmente no Instagram, conta com cerca de seis integrantes, que apesar de não terem atribuições definidas, sempre compartilham informações que são apuradas. Vitória conta que há diversas discussões sobre o que postar ou não na conta, imagens de Harry Styles em casa de amigos, onde o cantor não saberia que a foto seria tirada também são evitadas. Por outro lado, há a reprodução de material já amplamente difundido, como o que aconteceu em 15 de maio de 2021, o vazamento de fotos de Harry Styles para o programa SNL, Vitória conta que a equipe pensou muito antes de tomar a decisão final, “a gente postou, mas as fotos já estavam todas viralizadas”, comenta. “Muitos portais já tinham compartilhado, se fossem poucos, dava para pedir para apagarem”, completa Luana.

Administradoras do portal Best Harry Brasil, criado em 2016 e que atualmente conta com uma equipe de 9 pessoas, também comentam sobre o procedimento de postagem. Vanessa Kethleen conta que quando há fotos vazadas de hotéis, quando Harry Styles está num momento íntimo, "a gente tenta não extrapolar alguns limites", e deixando de lado até mesmo o engajamento que poderiam ter, Vanessa diz que o portal deixou de postar fotos de Harry na Itália que foram vazadas em 2020. "Uma coisa é você acompanhar ele (Harry) como artista, outra coisa é invasão de privacidade. Então a gente tenta ao máximo manter essa privacidade" explica Vanessa, "a gente tenta ao máximo manter esse contato como fã do artista, mas deixando que a vida privada dele permaneça privada" completa.

Mesmo que administrar contas em redes sociais não sejam algo rentável, uma atividade feita por amor, não deixa de ser um trabalho com bastante dedicação de garotas como Vitória, Luana, Vanessa e Camila, além das tarefas comuns de postar o cotidiano do artista, legendar entrevistas e informar lançamentos, a frequência de postagens muda completamente quando falamos em cobertura de shows. Em sua turnê de 2021, Harry Styles tem feito shows toda semana e para os fãs que não podem comparecer ao evento, a cobertura de shows feitos pelos portais fazem com que os fãs se sintam mais próximos daquele momento onde o artista ergue uma bandeira, se comunica com outros fãs ou faz um cover diferente.


Em períodos como esse, Camila e Vanessa do Best Harry Brasil contam que é fundamental o revezamento e divisão de tarefas entre as administradoras, para que nenhuma fique sobrecarregada. Enquanto uma pessoa fica atenta ao que o Harry Styles fala no show, ou interage com o público, a outra fica responsável por procurar fotos e vídeos para alimentar o Instagram.


Com tantas tarefas envolvendo informar o fandom, Luana, do Site Harry Styles Br, conta que não sabe como conciliar a vida pessoal com o portal que administra, ela declara que dá prioridade ao que é rentável, mas explica que "a gente gosta tanto do portal, do Harry, de trazer essas informações e fotos para outras pessoas, que acaba sendo uma prioridade também".


Quando falamos de renda é importante lembrar que os portais de notícias também têm seus custos e o dinheiro precisa existir. No caso as garotas do Site Harry Styles Br, possuem a loja oficial do portal a: HSBR Store. Moletons, ecobags e adesivos inspirados nas letras de Harry Styles fazem parte do catálogo da marca que já existia antes de Luana e Vitória entrarem para a equipe, entretanto Vitória conta que hoje também participa  da loja, fazendo fotos e dando ideias para os designs., "Eu sou mais a modelo do que a cabeça da loja" explica. 

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A economia afetiva dentro do fandom de Harry Styles

Esse processo tem muita influência do punk, do faça você mesmo. Isso acontece, por exemplo, com seriados. Eu tenho visto vários perfis de fãs de séries históricas reconstruindo moldes e explicando como fazer. Eu acho muito bacana, porque essa informação não estaria acessível, se não fosse pela internet”

Explica Adriana Amaral.

Grandes marcas de fast fashion muitas vezes se inspiram em grifes para criar suas roupas, como forma de seguir tendências, uma vez que é o que está atualmente nos holofotes das mídias e do público, e para consequentemente vender mais. A jornalista da Vogue, Gabriela, explica que essa é uma estratégia comum das redes de fast fashion para poder vender itens que estão em alta, por um preço mais barato.


Recentemente a loja Marisa fez peças com a famosa frase usada por Harry Styles: “Treat People With Kindness”. Além de ser usada em seu merchandising, o cantor tem uma música com o mesmo nome, que ultrapassou 180 milhões de reproduções no Spotify. No entanto, um moletom oficial do cantor custa cerca de R$ 392,90, enquanto o da loja brasileira custa R$ 49,00. Mesmo que não seja um produto licenciado ou que não leve diretamente o nome do cantor, fãs buscam um jeito alternativo de também vestirem algo que esteja associado ao seu ídolo.


Esse movimento acontece quando fãs vêem o cantor usando determinada peça e rapidamente aquilo se torna alvo de desejo, exemplificado pelo cardigan colorido. O site Harry Styles Fashion Archive é uma das principais fontes para saber quais são as marcas e preços das roupas e acessórios utilizados pelo cantor.


Em seus shows é comum que Harry Styles use roupas da Gucci, já que seu nome é constantemente associado à marca, porém no dia a dia Harry tende a usar camisetas de bandas, com conteúdo vintage ou com frases irônicas, porém isso não quer dizer que elas são baratas. Com um urso panda estampado e a frase “I’m gonna die lonely” ou “Eu vou morrer sozinho”, uma das camisetas mais famosas usadas por Harry da grife Marc Jacobs em parceria com a pintora Magda Archer, custa cerca de $ 115,00 dólares, ou R$ 645,56.


Julia Sanches é dona da loja Kiwi Fan Store, ela conta que sempre quis criar uma loja que fosse direcionada para fãs, uma vez que ela mesma é fã de vários artistas e nem sempre achava o que queria em lojas já existentes. “A gente sempre vê camisetas básicas, com a foto do Harry, por exemplo, mas a gente não vê algo que o fã entende, para quem bate o olho em uma frase e entende o significado”, explica. Inicialmente, a designer conta que criou algumas artes para que fossem estampadas nas camisetas, no entanto, foi seu irmão que a ajudou definitivamente a começar a loja. “Ele falou: ‘se quer que eu te ajude, eu tenho um dinheiro guardado e fica meio a meio’ e eu respondi: ‘então vamos”. Com mais de 13 mil seguidores no Instagram da marca, Julia conta com alegria que deu mais certo do que imaginava.


Embora leve o nome “kiwi”, música de Harry Styles, a loja também oferece produtos de outros artistas como One Direction e seus respectivos membros em carreira solo, das cantoras Olivia Rodrigo e Ariana Grande, mas sem dúvidas o que predomina é o cantor britânico. Com camisetas inspiradas nas músicas e no merchandising do artista, a Kiwi Fan Store também oferece opções mais baratas para quem quer usar roupas inspiradas em seu artista favorito.


No site oficial do cantor Harry Styles estão disponíveis  camisetas inspiradas em sua atual turnê Love On Tour, por $39,99 ou R$ 224,49, enquanto a Kiwi Fan Store oferece camisetas semelhantes por R$ 45,00. Um preço tão distinto abre a possibilidade de fãs também adquirirem produtos de seu artista. Assim como outras camisetas usadas por Harry Styles que também estão presentes na loja de Julia, a famosa camiseta com a frase de A Pequena Sereia: “But Daddy I Love Him”; camiseta usada junto com o cardigan que tem em sua estampa uma abelha e a frase “enjoy health, eat your honey”.


Assim como Beatriz Ramos, da loja virtual Harry Styles’ Cardigan Brasil, Julia pediu para que sua mãe fizesse um cardigan como o de Harry Styles e após postar nas redes sociais, várias fãs começaram a pedir para que ela a colocasse em sua loja. Foi então que a empreendedora pediu para que sua mãe continuasse a produzir a peça em tricô. “Desde que ela fez o primeiro ela não parou de fazer mais”, explica Julia que coloca o produto a venda aos poucos conforme sua mãe vai produzindo, já que o processo de confecção tende a ser demorado e ela prefere que as pessoas não fiquem esperando muito tempo pelo cardigan.


Não se limitando apenas ao vestuário, os fãs também têm muitas procuras quando envolvem seus ídolos. A Kiwi Fan Store também é conhecida por  produtos de papelaria, com cadernos, planners, adesivos e blocos de anotações. Julia conta que a procura por esses produtos ocorrem com mais frequência em janeiro devido ao período de volta às aulas. 


A venda de produtos de fãs para fãs se tornou algo comum por conta das redes sociais, é possível ver o surgimento de novas lojas que compartilham seus produtos através do TikTok e Instagram. Esse movimento faz com que fãs se unam e se tornem verdadeiros fãs das marcas que acabaram de adquirir. 


Esse fenômeno foi descrito pelo pesquisador norte-americano Henry Jenkins que menciona a ideia de economia afetiva em seu livro Cultura da Convergência, de 2006. O termo é usado para explicar a identificação e a relação emocional que os consumidores têm com suas marcas preferidas. 


A relação entre empreendedor e cliente é um diferencial quando falamos em compras. Em lojas menores, o contato é direto e não é como se o consumidor estivesse fosse um estranho, uma vez que o empreendedor entende o que está comercializando e para quem seus produtos são direcionados. Não é à toa que mesmo com o surgimento de várias dessas lojas, o público não diminui, pelo contrário, continua crescendo. Podemos ver isso com a loja Leeyum Store, cujos  produtos inicialmente também eram vendidos para fãs de One Direction e do Harry Styles, entretanto hoje seus produtos envolvem  Fórmula 1 e cerca de 10 artistas da cultura pop.


Não é de hoje que os fãs querem ser parecidos com seus ídolos, a pesquisadora Adriana Amaral conta que o diferencial atual é a praticidade para se conectar com uma rede de pessoas com os mesmos gostos. “Antigamente, por exemplo, eu pegava a capa de um disco e pedia para minha mãe costurar (a roupa)”, explica Adriana. Ela precisava aguardar as revistas em banca para saber de seus artistas favoritos.

 

 

 

 

 

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Comportamento de fãs e influência

Com o sucesso e cada vez mais tendências surgindo, Harry Styles sem dúvida tem influenciado fãs em diversas áreas, seja por conta de suas unhas pintadas, seus colares ou o seu famoso cardigan em patchwork. Gabriela Bardusco vê essa relação de ídolo e artista de forma saudável quando o artista traz sentimentos bons para o fã. “Estamos vivendo tempos muito difíceis, e ter esse escape é muito importante. Eu muitas vezes quando adolescente, se eu estava passando por algum problema no colégio ou com a minha família, eu ia para o meu mundinho da One Direction e ficava lendo fanfics e me sentia melhor”, explica a jornalista que também é fã de Harry Styles e One Direction. “Algumas pessoas precisam disso. Da mesma forma que algumas pessoas fazem ioga para ficar mais concentradas e diminuir ansiedade, tem gente que fala do Harry Styles no Twitter”, completa.


Engana-se quem acha que a influência dos artistas na vida do fã começou com as redes sociais. A pesquisadora de comunicação digital na USP, Issaaf Karhawi, explica que a influência acontece por conta de processos sociais e de vários fatores como reconhecimento, legitimação, projeção e identificação. “As celebridades sempre foram ícones influentes, sempre ocuparam esse espaço de prestígio”, portanto quando falamos de Harry Styles, o cantor contribui para questões de reconhecimento e de identidade de alguns fãs.


Porém, quando falamos de uma época de relações digitais, essa influência se caracteriza de forma diferente, uma vez que a internet contribui para o compartilhamento de ideias, informações e produção de conteúdo nas redes sociais. Esse processo de influência está ligado a necessidade da sociedade estar nas redes sociais e “em algum momento vai exigir a produção de conteúdo”, afirma Issaaf.


A pesquisadora conta que atualmente é muito comum, nas pesquisas de comunicação, que o termo “cultura da participação” seja usado. Essa perspectiva mostra o quanto o ambiente digital democratizou espaços e é uma ferramenta de aproximação, distribuição e produção de conteúdo. A fã Lara Bernardes é uma dessas pessoas, que começou a atuar na internet por conta da One Direction e do Harry Styles. No início da pandemia de 2020 próximo ao aniversário de 10 anos da banda, Lara viu nos vídeos do TikTok uma forma de interação com outros fãs e de ainda assim falar do seu assunto de interesse.


A Cultura da Participação nasce no digital. “Os primeiros teóricos que discutiram a cultura da participação vieram dos estudos de fãs. Eram autores que no início dos anos 1990 investigaram justamente esse lugar de atividade do fã”, pois os fãs não ocupam espaço de passividade, explica Issaaf, mas sim o espaço de interferir, reproduzir a partir de algo que já está em circulação, como podemos ver com as fanfictions, mesmo com o hiato da One Direction, ainda há muitos fãs que consomem e escrevem, e consequentemente muitos se tornam capazes de publicar suas histórias como livros.


Essa movimentação dentro dos fandoms é capaz de levar para mais pessoas conteúdo ou produtos de uma mesma celebridade, um exemplo comentado anteriormente foi o compartilhamento de fotos feito por Beatriz Ramos usando um cardigan inspirado em Harry Styles, que alcançou tantos fãs ao ponto de levá-la a criar a sua própria loja. Ou quando falamos sobre construção de comunidades, podemos lembrar dos diversos portais de notícias que são a principal fonte de informação do fandom, como o Site Harry Styles Br e Best Harry Brasil, que possui toda uma equipe com o objetivo de levar informação aos fãs.


Issaaf conta que essa ideia de comunidade de fãs costuma se dar a partir de laços fortes que permitem a mobilização e o diálogo, fazendo com que eles sejam levados adiante por conta do interesse em comum compartilhado entre os fãs.

A influência de um artista sobre um fã é vista desde o consumo de uma a linha nova de esmaltes de seu cantor favorito, no ato de aprender a tricotar ou na ação de começar a usar anéis em todos os dedos das mãos, ao usar colares de miçangas, que até pouco tempo atrás eram taxados de infantis; até a coragem de conviver com a sua sexualidade. A pesquisadora que estuda exatamente a influência de pessoas sobre outras no ambiente digital, conta que “geralmente a gente se projeta em celebridades”, pois há identificação e reconhecimento de características comum”. Podemos concluir que na identificação há a dualidade entre o “eu gostaria de ser como meu artista favorito” e o “nós compartilhamos muitas características". Para Issaaf há quase um mimetismo, justamente pela sensação de partilha e diferenciação entre o fã e o artista, gerando uma verdadeira sensação de intimidade e proximidade.

Uma construção de comunidades de interesse, vinculados por laços fortes, só podem gerar ou potencializar ainda mais os trabalhos dos artistas

ressalta Issaaf.

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